Prova por IA no processo: o judiciário Brasileiro ainda não tem regras específicas, e isso cria riscos

Prova por inteligência artificial é qualquer elemento de prova criado, alterado ou analisado com ferramentas de IA e levado a um processo judicial. Isso inclui um áudio com voz clonada, uma imagem gerada por IA e até um relatório técnico produzido por um chatbot. Portanto, o tema vai muito além dos deepfakes.

Hoje, o Brasil não tem uma lei específica sobre esse tipo de prova. Assim, juízes aplicam as regras gerais do Código de Processo Civil e do Código de Processo Penal a uma tecnologia que essas regras não previam. Consequentemente, cada processo ainda abre espaço para dúvidas, e para riscos.

Dois riscos diferentes que costumam ser confundidos

Prova fabricada por IA

O primeiro risco é a prova falsa. Por exemplo, um áudio com voz clonada, um vídeo com rosto trocado ou um print de conversa montado com ferramentas automáticas. Nesses casos, a IA cria um fato que não aconteceu.

Prova analisada por IA

O segundo risco é menos conhecido. Ele aparece quando alguém usa uma IA generativa para analisar uma prova real e apresenta o resultado como se fosse uma perícia. Por outro lado, o problema aqui não é a falsificação, mas a falta de confiabilidade técnica da análise.

Afinal, modelos de IA generativa trabalham com probabilidades. Por isso, podem produzir conclusões erradas que parecem convincentes, o fenômeno conhecido como alucinação.

O que o STJ já decidiu

Mesmo sem lei específica, o Superior Tribunal de Justiça já começou a traçar limites. Em abril de 2026, a Quinta Turma julgou o HC 1.059.475, sob relatoria do ministro Reynaldo Soares da Fonseca.

No caso, um relatório produzido com IA generativa chegou a uma conclusão sobre o conteúdo de um áudio. Contudo, o exame oficial do instituto de criminalística havia concluído o contrário. A Turma mandou retirar o relatório do processo.

Segundo o STJ, a prova precisa ser lícita e também confiável. Além disso, o tribunal destacou o risco de alucinação da IA generativa e a falta de base técnica e científica do relatório. Em outras palavras, uma resposta de IA não substitui um exame técnico com método verificável.

O mesmo tribunal também considerou insuficientes, em outro caso de 2026, capturas de tela de ferramentas de IA sem autenticação. Dessa forma, a tendência é clara: sem método e sem cadeia de custódia, a prova perde força.

O que já existe de regra

Embora não exista lei própria, algumas normas já se aplicam. Por exemplo, o artigo 369 do CPC admite apenas meios de prova legais ou moralmente legítimos.

Da mesma forma, o artigo 422 prevê perícia quando alguém impugna a autenticidade de uma fotografia digital. Já os artigos 430 e 437 dão 15 dias para contestar a autenticidade ou a falsidade de um documento.

No Judiciário, a Resolução CNJ 615/2025 trata do uso de IA pelos próprios tribunais. Ela exige transparência, auditabilidade e supervisão humana. Contudo, ela não regula as provas que as partes levam ao processo.

A LGPD também entra nessa conta

Áudios e vídeos com voz e rosto envolvem dados biométricos, que a LGPD considera dados pessoais sensíveis. Assim, a coleta e a análise desse material exigem cuidado.

A própria LGPD permite tratar dados sensíveis para o exercício regular de direitos em processo judicial. Ainda assim, quem produz a prova precisa respeitar a finalidade e evitar exposição desnecessária. Por isso, a perícia técnica também ajuda a manter a prova dentro dos limites da lei.

Como a perícia técnica protege sua parte

Primeiro, o perito preserva o arquivo original e registra o hash, garantindo a cadeia de custódia. Em seguida, analisa metadados, compressão, padrões de imagem e de voz com métodos documentados.

Além disso, quando a outra parte apresenta um relatório feito por IA, o assistente técnico aponta a falta de método e de reprodutibilidade. Por fim, o parecer técnico oferece ao juiz o que a IA generativa não oferece: um raciocínio verificável.

Checklist: ao receber uma prova suspeita de envolver IA

  • Anote a data da intimação e calcule o prazo de 15 dias
  • Peça o arquivo original, e não apenas cópias ou prints
  • Verifique se a IA criou a prova ou apenas ajudou a analisá-la
  • Questione relatórios sem método, autor identificado ou responsável técnico
  • Acione um perito em IA nos primeiros dias do prazo
  • Formule quesitos sobre método, cadeia de custódia e confiabilidade

Perguntas frequentes sobre prova por inteligência artificial

Existe lei brasileira específica sobre provas feitas por IA?

Não. Por enquanto, os juízes aplicam as regras gerais de prova do CPC e do CPP, além dos precedentes que os tribunais começam a formar.

Um relatório feito por ChatGPT pode ser usado como prova?

Em regra, não como prova técnica. No HC 1.059.475, o STJ excluiu um relatório de IA generativa por falta de confiabilidade e de base científica.

A parte pode usar IA para ajudar na análise de provas?

Pode, como ferramenta de apoio. Contudo, a conclusão precisa de validação humana, método documentado e um responsável técnico identificado.

Como provar que um áudio foi criado por IA?

Por meio de perícia, que analisa o arquivo original, os metadados e os padrões de voz. Em muitos casos, a conclusão indica um grau de probabilidade, e não uma certeza absoluta.

A LGPD impede o uso de áudios e vídeos como prova?

Não. A LGPD permite o uso para o exercício regular de direitos em processo judicial. Ainda assim, exige cuidado com a finalidade e com a exposição dos dados.

Por que advogados buscam a Köpp Experts

A Köpp Experts realiza perícias em inteligência artificial e conteúdo sintético, além de perícias digitais. Assim, analisa tanto provas fabricadas por IA quanto relatórios produzidos com IA.

Com sede em Rio do Sul, Santa Catarina, a Köpp Experts atende processos em todo o Brasil. Consequentemente, advogados de qualquer estado contam com suporte técnico dentro dos prazos do CPC.

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